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colunista - Alexandru Solomon


Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas` e ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade). Nas livrarias Cultura, Siciliano e ´Pega Sonho``: Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP / Alexandru Solomon: Tel.: (11) 3668-2107)| E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br

Conversa (des)afinada: Mistérios da Economia

(texto publicado em 22 de maio de 2010)

Abandonando a sofisticação, as letras gregas e as derivadas parciais, chegamos a uma situação estranha: se antes a Economia parecia complicada, ao retirar a camada matemática, ela continua igualmente desafiadora. O que a torna aparentemente inacessível, são os contínuos desmentidos àquilo que parecia verdade até a próxima esternutação, digo, espirro.

Atravessamos uma crise, cujos reflexos sobre nossa economia ainda não estão claros e, por isso mesmo, seria bobagem querer definir. Os analistas, segundo uma definição maldosa, dividem-se em duas categorias: aqueles que não sabem e aqueles que não sabem que não sabem.

A crueldade pára por aqui. E não por falta de exemplos.

Temos as profecias sem risco, do tipo: 'Um dia há de chover'. Vindo de um Nouriel Roubini, depois de realizada, confere ao autor uma aura de infalibilidade até o primeiro tropeço. Para evitar esse gênero de embaraço, os entendidos recomendam expressões de clareza discutível : 'O ambiente macroeconômico se mantém indefinido', 'tendências conflitantes tornam a recuperação problemática' ou, enfim, 'mantidas as atuais condições, justifica-se um otimismo moderado'.

Há também as 'bolas fora': No auge da crise, a equipe do respeitado Morgan Stanley previu uma queda de 4,65% do PIB brasileiro em 2009. Não foi 4,6 ou 4,7. É possível até que, diante de um número do tipo 4,648632%, por algum resquício de respeito aos algarismos significativos, tenha sobrado apenas 4,65% para o anedotário. Aquele modelo - levando em consideração uma infinidade de variáveis: o peso da economia informal, a variação do poder de compra em Jericoacoara, a matriz de Leontieff da Tailândia adaptada à realidade brasileira, etc. - cuspiu um número rigorosamente errado. Razão sobrava a Keynes quando afirmava ser preferível estar vagamente certo do que rigorosamente errado.

No capítulo das 'bolas fora' merece destaque nosso ministro da Fazenda Guido Mantega. Ele pertence à categoria especial de vaticinador - torcedor. Achando, possivelmente, que suas profecias eram autorrealizáveis, produziu incansavelmente números que a realidade com incrível malevolência se encarregou de desmentir sistematicamente. Chamar Sua Excelência de Cassandra ao contrário, talvez não fosse adequado. Cassandra acertava tudo, mas ninguém acreditava, ao passo que Sua Excelência raramente acerta, mas isso não faz a menor diferença.

Ao fim e ao cabo, nosso PIB de 2009 encolheu 0,2% - até nova revisão - e, como no filme 'Nunca aos Domingos', foram todos para a praia.

Durante essa tempestade, tsunami ou marolinha - dependendo da definição que cada um desses termos passará a ter nos estudos futuros de Macroeconomia- ao substituir com vantagem, por sua maior plasticidade conceitos áridos, tais como, depressão ou recessão, não faltaram explicações para o relativamente bom desempenho de nossa economia.

Além de se enaltecer as ações providenciais do NOSSO TIMONEIRO, o incentivo ao mercado interno, as injeções de crédito - não que outros países não tenham manuseado a seringa e aplicado soro na veia - uma explicação merece ser comentada para concluir esse texto enfadonho.

Há uma quase-unanimidade para explicar que nossa sorte foi o nível das nossas reservas internacionais. Efetivamente, se no ano 1 d.L o nível de nossas reservas era inferior a 40 gigadólares (bilhões para ficar na mesmice), eis que no ano VII d.L. oscilou em torno de 200 gigadólares, e atualmente, estão em algo bem próximo a 240 bi.

Não há dúvida possível quanto ao mérito desse escudo, já que em outras situações, a falta dele deu no que deu. Parte das reservas se deveu aos superávits da balança comercial. Para a outra parte, talvez seja necessária um pouco de irreverência. Existe o mecanismo do chamado 'carry-trade', que consiste em tomar emprestado num país que pratique baixas taxas de juros e aplicar os recursos num país onde a taxa de juros é elevada e, pelo princípio universalmente aceito do 'é melhor ser rico e com saúde, do que pobre e doente', apurar lucro.

Aí intervém a irreverência, pela qual o autor pede desculpas. Para conseguir um nível alto de reservas - se é esse o adequado, se deve ser metade ou o dobro, é uma questão a ser debatida - praticamos o 'carry- trade' português que consiste em assumir uma dívida a taxas vizinhas à taxa chilique, arranjar reais, comprar dólares e aplicá-los no mercado de T-bills norte-americano, auferindo uma remuneração bem inferior.

A pergunta lancinante é, saber até onde devam crescer essas reservas, já que em paralelo ao acúmulo desse poderoso anteparo contra crises, aumenta a dívida interna.

Há, e não são poucos, aqueles que sustentam que, quanto maiores as reservas, maior a blindagem da economia, algo como colocar um paraquedas numa motocicleta para aumentar-lhe a segurança.

Conversa (des)afinada: Aterro sanitário de nossa política

( texto publicado em 20 de fevereiro de 2010)

Por mais indulgente que seja nossa apreciação, uma conclusão tende a prevalecer. Estamos diante de um gigantesco aterro sanitário, no qual está empilhado o lixo gerado pela atividade política dos últimos anos. Se é de um tamanho como nunca antes a História tenha registrado, ou não, chega a ser irrelevante. Não vamos bater nas teclas gastas do mensalão, aloprados, e outros escândalos relegados a um imerecido esquecimento. Não será preciso. O processo de renovação do lixo é contínuo, com o empilhamento constante de novas camadas de detritos. Para aqueles que se preocupam com a ecologia, uma preocupação a mais. Não se trata de lixo reciclável.

É comum, após cometer uma tolice, praticar quatro outras na tentativa de reabilitá-la, ensina Baltasar Gracián. Será que para apagar as quatro outras seriam necessárias dezesseis adicionais, perguntará o cínico.

Sem discutir os méritos de nossa política externa, regido pelos nossos três chanceleres, ou tenores – se preferirem: Celso Amorim, Marco Aurélio Garcia e Samuel Pinheiro Guimarães – recém deslocado para a ponta esquerda da SEALOPRA, os sonhos megalomaníacos levaram a posições que o anti-americanismo endêmico não basta para justificar. São propósitos tão fora do alcance da plebe vulgar que não vale a pena discutir o perdão de dívidas dos Gabões da vida, os tapinhas nas costas do senhor Ahmadinejad, ou as mesuras ao senhor Chávez e ao seu projeto bolivariano seja lá qual for o significado que se quer dar a esse conceito. Trata-se de dogmas indiscutíveis – como todos os dogmas. Ou no linguajar com o qual querem nos acostumar “eixos”.

Mesmo evitando esse debate, já que dar murro em ponta de faca não é sinônimo de sensatez, talvez valesse a pena formular, ainda que timidamente, uma pergunta: 'Tudo bem. Estamos adquirindo a dimensão global do Brasil ano 8, já que antes do desabrochar dessa gloriosa era havia apenas desolação. Mas será que, para tanto, devemos comprar os aviões que ninguém quis a preços estranhamente altos? Não se trata de sair bradando por aí 'mais Camembert e menos Rafale', apenas, questionar esses sábios que acham suficiente afirmar que 'o barato sai caro' para que em nome de uma aliança estratégica cevada por rapapés gauleses, se abra mão de uma elementar praticidade. Nada disso! Ao diabo, o parecer dos técnicos que entendem do assunto, temos que habituar-nos com uma percepção superior dos fatos.

Anestesiados por falas triunfalistas, reagimos molemente, para depois atirarmos a toalha. Quem somos nós para discutir esse entendimento superior dos mecanismos da afirmação no contexto global?

Essa discussão não leva a nada, ofuscada pelo problema maior da sucessão presidencial. Na campanha, cujo início foi antecipado, contrariamente ao PAC, cuja conclusão ficou para uma data indefinida, recebemos continuamente mensagens subliminares ou, nem tanto: 'No passarán os revanchistas, entreguistas, vendilhões etc. cujo objetivo é acabar com tudo de bom que se fez até hoje' – aliás tudo que se fez até hoje nessa octaetéride incompleta merece elogios superlativos – para atirar o Brasil no regime feudal, que prevalecia até o ano 1 da Redenção.

O próprio Redentor e seus porta-pensamentos repetem esse mantra. Caminhamos para a transformação do processo político num autêntico programa de auditório, que deixaria o saudoso Chacrinha eufórico. Buzinadas para Serra! E a Dilma? Vai para o trono ou não vai? Vocês querem bacalhau? Querem Bolsa-issoeaquilo? Só tem aqui, no reino encantado do 'Nunca antes'. Nunca antes o Brasil teve 190 milhões de habitantes.

O debate que se aproxima permitirá ao eleitor escolher entre FHC e Lula. Ah, eles não estão participando da disputa? Não tem importância. Eleitor, preste atenção, Dilma fará mais que Lula e Serra será pior que FHC. Agora podem votar! 'Ready, set, GO!', diria um entreguista.

O mundo não pára... É preciso vislumbrar o futuro. Tarefa difícil, já que por aqui, até o passado é imprevisível, para não mencionar o presente.

Há, no entanto, a poderosa ajuda de um discípulo de Cassandra, geneticamente modificado. Cassandra era uma profetisa sobre a qual se abateu a maldição de Apolo. Poderia prever o futuro, mas ninguém iria acreditar nela. Nosso Ministro da Fazenda é uma espécie de Cassandra ao contrário. Não acerta uma previsão, porém há uma máquina que ecoa todos os seus prognósticos, para, em seguida se calar, quando constatados os equívocos.

Enquanto as águas do rio da fantasia, no qual não iremos nos banhar duas vezes correm plácidas, geram-se carros alegóricos para o desfile da candidata Dilma.

Já temos o PAC2. Esse sim, acelerará de verdade, e para não soçobrar na monotonia, vamos recriar a Telebrás. É um projeto bizarro, não resta dúvida, e isso, por uma razão bem simples. Nem nos seus tempos de glória, a Telebrás jamais instalou um telefone, não colocou sequer um orelhão, não enterrou um metro de cabo. Era uma empresa 'holding', de méritos indiscutíveis, mas jamais foi operacional. Qual o propósito dessa estranha idéia? Injetar dinheiro público numa atividade que o setor privado, convenientemente orientado - para isso existe a Anatel - desempenhará melhor!

Mesmo entregando à Telebrás a rede de fibra óptica da falida Eletronet, como chegará aos assinantes, como percorrerá a famosa ‘last mile’ até a residência dos futuros incluídos digitalmente? Como não se cometerá a sandice de criar uma rede capilar paralela – ou talvez sim... cala-te boca – será utilizada provavelmente a rede das atuais concessionárias. Então, para quê? Para acumular prejuízos durante uns cinco anos – bancados com mais impostos – e colocar mais companheiros a serem apresentados à lei de OHM?

Do alto de sua imensa popularidade NOSSO PRESIDENTE contempla as planícies desse Absurdistão!

Conversa (des)afinada: Teimosia

(texto publicado em 06 de novembro de 2009)

Pois é, essa a praia dos donos da verdade. De alguma forma, aprisionaram a ave rara ou, melhor dizendo, pensam tê-lo conseguido. Defensores pertinazes desse algo difuso, aceitarão qualquer desafio, tentando comprovar o quanto acertaram.

Os verdadeiros teimosos não aceitam outra voz, a não ser a própria, convenientemente confundida com a da razão. Tornaram-se guardiães das próprias quimeras. Guardiães ou reféns?

Nada mais ilusório do que esse ‘status’. Infeliz miragem em dois tempos. Em primeiro lugar, desfilam os orgulhosos, persuadidos de possuir o saber. O que seria essa posse? Simplesmente deter a senha que dá acesso à verdade única, total, mítica. ‘Eu tenho certeza disso’ está estampado nos seus cartões de visita, na sua roupa de cama, nas suas lápides mortuárias.

Impossível encontrar algo mais perigoso do que a certeza de um ignorante, a não ser a certeza de um sábio. Isso por uma razão bem simples. O tolo possui pouca credibilidade. Está persuadido de dominar algo, mas ninguém dá a mínima importância. A pregação dele será, via de regra, corroída pela chacota associada ao seu primo, o descrédito, ao qual se junta a gargalhada da qual o néscio se faz merecedor.

A armadura das suas certezas absolutas não passa de um fugaz jogo de espelhos, do qual ele é o único dependente. Ele irá espernear. Poderá até discursar em praça pública, mas tudo durará o tempo necessário para que os curiosos tenham saciado a vontade de dar uma impiedosa gargalhada. Poderá até, vitima da soberba, achar que por instantes foi o soberano sem coroa de um reino sem fronteiras. ’Eu sei que ... ’ Não sabe. Está equivocado. Sob sua bandeira não haverá seguidores.

Viva o bloco do eu só! Até esse ponto, será apenas um pobre diabo, embora não o confesse nem ao seu prendedor de gravata, se é que o tem. E quem diz que isso lhe basta? Para ser um verdadeiro teimoso, terá de persistir na crença, chovam canivetes ou raros perfumes. Nada o abaterá de sua rota, segmento de reta sem nada que o defina.

Impermeável a qualquer argumentação ele é um ‘homo sapiens’ apenas na classificação animal. Sem argumento para defender suas posições e sem a menor intenção de modificá-las, cobrará apoio. Ao ver que este lhe é negado, enfrentará o bom senso e o mundo se preciso for. Uma paixão não compartilhada é outra oportunidade que o destino oferece para exercitar a caturrice. Rejeitado, nunca aceitará essa condição. O amor se transforma em ódio. O preço da transformação, para a pessoa amada, poderá ser a vida.

O sábio vitimado pela 'fata morgana' de um sofisma ao qual sucumbiu, está numa situação diferente. Possui credibilidade. Além do argumento da autoridade, ostentará a autoridade dos argumentos, com os quais poderá subjugar outros, arrastá-los para empreitadas ousadas, transformá-los em bucha de canhão do seu próprio equívoco. Inebriado por poder cooptar discípulos, será um eterno insaciável.

Proselitismo é a sua arma. Seu discurso, viciado pelo erro do qual não tem consciência, convence, seduz, cativa, arrasta. Diferentemente do tolo, apegado para sempre a um falso conceito, ele poderá analisar e, um belo dia, descobrir o erro.

Sendo teimoso, no entanto, não irá reconhecer que a aventura, para a qual seu poder de persuasão arrastou multidões, partiu de uma premissa falsa, ou, por algum atalho proibido pela lógica, levou a uma aberração que o derrubou.

Admitir o engano é mais doloroso do que qualquer perda material. O orgulho irá se opor empedernidamente. Saberá morrer abraçado a um fantasma translúcido, acreditando ser do fantasma o perfeito amante. Vestígios de razão tentarão conquistar algum espaço. Em vão.

O sábio pode também se apaixonar, embora a paixão se pareça com a antítese da sabedoria. Na verdade, a conseqüência imediata da flechada de Cupido será relegá-lo à categoria anterior. Saberá, se rejeitado, dar contornos diferentes ao drama. Não será capaz de desistir.

Nem sempre o Cupido está disposto a desperdiçar sua preciosa munição. Às vezes, se limita a disparar dardos de paixão política. Em época de liquidação, serão os da paixão clubística. O efeito é o mesmo. Vítima da servidão humana, o alvo seguirá cedo ou tarde a coreografia do desespero.

Tolo ou sábio, o cacoete de fazer pé firme está presente. Os estragos que o sábio poderá causar serão infinitamente maiores além de deixar profundas seqüelas.

Entre esses dois extremos surge um instigante ser híbrido, o líder carismático, que suficientemente basbaque para ser líder, ou cegado pela ilusão de ótica causada por algum clarão de verdade particular que pensa ter descoberto, grita as suas palavras de ordem, repetidas pela patuléia.

Reparem que a massa de manobra será composta pelos que não têm capacidade de discernimento – outros pensaram por eles – ou então caíram na armadilha de alguma vulgar inverdade, vendida numa embalagem convincente.

Não há teimosia nas ovelhas de Panurgo, apenas integram alguma unanimidade burra. O grande líder incapaz de uma mudança de rota, breve se torna um maquinista de trem desgovernado. Os trilhos da teimosia o guiarão ao fracasso. A História está repleta de momentos nos quais faltou a ‘maldita lucidez.’

Para o 'gran finale' dessa pequena história, reservei a cruel surpresa que ignora o QI da vítima, o segundo tempo da miragem. Raras são as verdades eternas. Ai das vítimas que se sacrificam no altar dos conceitos que já perderam sua validade. Defenderam com unhas e dentes um fantasma que, do alto de um degrau mais alto do conhecimento, revelou-se enganador.

Nessa fossa comum, o lorpa e o filósofo coabitarão em harmonia sob a vaia estrepitosa da posteridade. Se não for vaia, será a aceitação indulgente com a qual brindamos o ‘E pur si muove’ de Galileu. Heróico ao insistir na sua idéia, seu conceito de Universo não passa de brinquedo no jardim da infância do conhecimento atual.

Alguns estarão fazendo mofa, achando que isso não lhes diz respeito. Eles não são teimosos – acreditam – são determinados, pertinazes, persistentes, coerentes, enfim. Pode ser. Perseguiram tenazmente não uma idéia, e sim uma ambição ou um objeto material. Pensam ter entrado nesse comentário como Pilatos no Credo. Por teimosia, jamais aceitarão o rótulo de teimosos.

*Crônica do livro ´´Sessão da Tarde``, Editora Edicon.

Disponível na livraria Pega-sonho (Rua Martinico Prado, 372 – Higienópolis – SP – Tel.: (11) 3668-2107).

 



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