colunista - Mariazinha Fernandes
Mariazinha Fernandes, pintora parnaibana, retrata a cidade de Santana de Parnaíba com suas construções coloniais, além de seus folclores e suas festas antigas e ingênuas, que dentro do estilo Naiif, usa cores alegres e motivos regionais, sendo uma pintora regionalista. É retratista e restauradora. Mora em Santana de Parnaíba, cuja história conhece profundamente. Artista plástica muito respeitada e premiada no Brasil e no exterior. Contato por e- mail: marizabelfernandes@gmail.com
Crenças de minha terra

São Benedito, uma festa muito antiga que outrora era comemorada aqui em Parnaíba no dia 28 de dezembro, com procissão, quermesse, leilão e retrêtas, era uma maneira bonita do povo se reunir para homenagear o santo.
São Benedito era chamado de Santo preto e nasceu na aldeia de São Fratelo na Itália, em 1524. Seus pais, Diana e Cristovão, eram escravos e, graças a sua imensa bondade, tiveram permissão para que tivessem filhos livres.
E, tiveram quatro: Benedito, Marcos, Baldassa e Fratela. Benedito, desde criança, começou a 'temer à Deus', guardando seus mandamentos, mortificando seu corpo e reduzindo-o ao serviço do 'Espírito'. Cresceu ouvindo os pais falarem de Deus, da eucaristia e de Maria.
Vendeu o que tinha, distribuindo o dinheiro aos pobres e retirando-se para uma vida solitária. Era um irmão leigo, mas mereceu de Deus ser favorecido com dons especiais e graças divinas.
Ele é um santo querido em nossa cidade, tanto que, o nome Benedito é muito popular aqui em Parnaíba entre as famílias antigas. No passado, quando saia a procissão em comemoração religiosa, o santo que saia na frente dos andores era Santo Benedito que, segundo crença antiga, era para não chover. Crença da minha terra...
A festa do Suru
Suru é um lugarejo distante 6 km do centro histórico de Santana de Parnaiba, onde temos uma capelinha com mais de 200 anos, em louvor a Santo Antonio.
Por isso, todos os anos, no mês de junho, temos a festa de Santo Antonio onde acontece uma romaria que parte da Praça das Bandeiras, atrás da Igreja Matriz de Sant'Anna, nossa padroeira.
Antigamente a festa era mais interessante, pois as famílias parnaibanas se preparavam e se preocupavam com a romaria, levando seus quitutes para degustar na hora do almoço, após a celebração da missa rezada na capelinha.
Para se chegar ao Suru, iam todos a pé acompanhados do padre. Após a missa, vinha a hora do almoço que, na realidade, era um “pic-nic”.
Após o mesmo, acontecia a quermesse com as barraquinhas enfeitadas com bandeirinhas coloridas feitas com papel de seda, barracas de prendas e todas as coisas típicas de uma festa junina.
Na procissão, tinha anjinhos, coroinhas, compadres, comadres e muitos amigos.
Tempos bons, onde uma festa tradicional e antiga era preservada graças a um parnaibano de valor, caráter e dignidade chamado Elísio Marques, que pertence a uma das famílias mais antigas de nossa cidade.
Nos dias de hoje, a romaria ficou muito diferente, pois temos a participação de pessoas com pretensões políticas que não tem o mesmo ideal e ingenuidade das pessoas de antigamente.
Por isso, gosto de retratar em meu estilo Naiif o romantismo e singeleza de antigamente, onde havia muita paz, tranquilidade, além da devoção de nosso povo.
Corpus Christi retratado em Naiif

A arte
Naiif é a “arte ingênua que parece ser simples”, mas que na realidade é “simplicidade difícil”, cheia de ingenuidade, poesia, além da sensibilidade e leveza que são sentimentos que vem da alma.
Eu mostro acima, uma pintura que fiz da Festa de Corpus Christi, que é a mais tradicional da minha cidade, Santana de Parnaíba.
Esta festa, de muita religiosidade, este ano vai acontecer amanhã, dia 11 de junho. Desde as primeiras horas do dia, centenas de pessoas, em sua maioria, parnaibanas, começam a fazer a montagem dos tapetes em serragens coloridas, com seus temas religiosos.
Pode-se dizer, que a festa já começa neste momento. Muita alegria, muita concentração, fazem com que o enorme tapete, que começa na porta da Igreja Matriz de Sant'Anna, passe pela rua " de Baixo, e dê a volta, pela " rua de Cima", chegando atrás da igreja, na praça do Coreto.
Eu sempre me emociono, e participo desta festa da minha terra, e assim, como a arte em Naiif retrata coisas e fatos da terra, de forma singela e muito colorida, posso exemplificar esta técnica, aproveitando este momento religioso e muito tradicional, que trará milhares de visitantes, para assistir a esta grande demonstração de fé.
Logo que os tapetes são finalizados, ficam expostos até o final da tarde, para os visitantes admirarem, e estes andam, com todo o cuidado, pelas suas laterais.
Quando a missa termina, o padre é o primeiro a pisar no tapete, com o ostensório, seguido pela população, com cânticos religiosos entoados por todos.
Eu, pessoalmente, lamento que a tradicional bandinha, que seguia o tapete tocando as canções religiosas, que eram acompanhadas pelos fiéis e admiradas pelos turistas, não participe mais da procissão, por decisão de um padre que aboliu esta participação, coisa que eu não concordo e espero ver um dia retornar.
O padre foi embora da igreja, e a bandinha não voltou à procissão.
Minha fé e minha paixão pela tradição da minha cidade, me tocou muito na elaboração deste quadro, com pessoas e anjinhos, ao lado do tapete colorido, em um cenário real, também muito colorido.
Espero que você, não só pelo que ele retrata, mas pela arte em si, muito colorida, muito cheia de detalhes, goste desta minha pintura e da arte em Naiif.
Amanhã, estarei lá, na hora do repique do sino da Igreja Matriz, acompanhando a procissão. E, isto me traz muitas saudades dos tempos idos, e me lembro dos versos de Fernando Pessoa, que vou recitá-lo abaixo:
Oh, sino da minha aldeia
Plangente na tarde calma
Cada tua badalada bate dentro de minh’alma
A cada pancada tua
Plangendo num céu aberto
Leva o passado mais longe
Traz a saudade mais perto
Parnaiba antiga

Este quadro representa uma parte do centro histórico.
É o antigo beco, hoje com o nome de Rua 9 de julho. É uma rua curta, uma ladeira da qual, do lado direito da esquina, existia uma casa muito antiga com o quintal dando para a Rua Suzana Dias.
O quintal com muito verde, de onde caia por cima do muro um lindo pé de primavera. Esta casa foi vendida e demolida, o que não acontecer, por ser tombada como patrimônio histórico.
Mas quem a comprou destelhou uma parte da mesma e, aos poucos a chuva fosse destruindo as paredes de taipas e, com isto a mesma teve que ser demolida.
Na demolição, foi comprovado que o madeiramento era todo pregado com cravos e não pregos.
Descendo a ladeira, ia-se de encontro com uma antiga casa de chão batido com uma porta e duas janelas de treliça.
Conta-se que esta casa foi negociada lá pelos idos do início do século XX, por uma carroça e um burro.
Esta casa ( hoje restaurada ) era chamada Casa do Fogo, pois era o lugar onde todas as noites buscava-se brasas do fogão a lenha para ser colocada no turíbulo ( lugar onde se colocava o incenso ) para ser usado na reza, durante a benção do Santíssimo.
Naquele tempo, tinha reza com ladainha e tudo mais, por volta das 7 horas da noite, com muita devoção dos antigos parnaibanos que sabiam a hora da benção pelos fogos.
Onde quer que estivessem, vinham para a reza, e depois davam umas voltas pelo jardim e retornavam para assuas casas. Era assi a nossa Parnaíba: calma, bucólica e com pessoas gentis. Doces tempos...
O Caboclo

Este quadro representa um típico caboclo brasileiro. Calmo, sem preocupação com grandezas, com competições, com essas bobagens todas desse mundo moderno que só escraviza o ser humano, fazendo-o esquecer da simplicidade da vida.
Esse tipo de sertanejo, em seu sítio fazendo seu cigarrinho de palha na porta de seu simples rancho, tendo um sabiá na gaiola, suas criações soltas no quintal, o amanhecer, o anoitecer, suas crenças e religiosidade e seu temor à Deus.
Isto fazia parte de sua vida calma. Eram tipos comuns nos arredores de Parnaiba onde existiam sítios antigos e cheios de poesia, mas isso pertence ao passado, a um tempo que já se foi e não volta mais.
Infelizmente, é por isso que tudo vai se acabando e levando embora as coisas simples, puras e verdadeiras como essas pessoas antigas, autênticas e amigas de verdade.
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